Title: Conheça todos os tratamentos para neuralgia do trigêmeo
Description: Entenda a neuralgia do trigêmeo, suas causas e os tratamentos validados por estudos científicos, da carbamazepina às evidências sobre o canabidiol.
Neuralgia do trigêmeo: conheça todos os tratamentos
Uma dor que surge do nada ao escovar os dentes, mastigar ou simplesmente sentir uma brisa no rosto, e que lembra um choque elétrico, não é frescura nem exagero. É assim que a neuralgia do trigêmeo costuma se apresentar, e reconhecer esse padrão é o primeiro passo para buscar o tratamento certo. Neste conteúdo, você vai entender o que é essa condição, quais tratamentos têm respaldo científico e o que a pesquisa já mostra sobre o uso do canabidiol nesse contexto.
O que é a neuralgia do trigêmeo?
A neuralgia do trigêmeo (NT) é uma síndrome de dor crônica que afeta o nervo trigêmeo, o quinto nervo craniano, responsável pela sensibilidade da face. A dor é descrita como paroxismos, crises súbitas e de curtíssima duração, semelhantes a choques elétricos, que atingem lábios, gengivas, bochechas e queixo, impactando de forma dramática a qualidade de vida de quem convive com a condição.
A incidência é de 3 a 5 casos por ano a cada 100 mil pessoas, aumentando com a idade e sendo mais alta acima dos 80 anos, além de atingir principalmente mulheres, numa proporção de 3 para 2 em relação aos homens.
Um estudo mais recente reforça esse perfil: a NT atinge, em média, 4,3 pessoas a cada 100 mil, sendo mais comum em mulheres e em pessoas acima de 60 anos. O ramo mandibular do nervo trigêmeo é o mais afetado (cerca de 60% dos casos), seguido pelo maxilar (cerca de 30%).
Na maioria dos casos, a causa está ligada à compressão do nervo trigêmeo por um vaso sanguíneo próximo, o chamado conflito neurovascular, que gera uma perda da bainha de mielina do nervo e provoca os disparos de dor.
Como a dor se manifesta e como é feito o diagnóstico
A crise de neuralgia do trigêmeo costuma durar poucos segundos a, no máximo, dois minutos, mas pode se repetir várias vezes ao longo do dia. Entre uma crise e outra, existe um período sem dor, chamado período refratário, cujo mecanismo ainda não é totalmente compreendido pela ciência.
A dor costuma ser desencadeada por estímulos simples e não dolorosos, como falar, mastigar, lavar o rosto ou até uma brisa leve, o que torna as atividades cotidianas um desafio para quem tem a condição.
Não existe um exame laboratorial específico que confirme a neuralgia do trigêmeo: o diagnóstico depende sobretudo de uma anamnese cuidadosa, seguindo critérios clínicos estabelecidos pela International Headache Society. A ressonância magnética é usada principalmente para descartar causas secundárias, como esclerose múltipla ou tumores comprimindo o nervo.
Tratamento farmacológico convencional: a primeira linha
A carbamazepina é o medicamento de escolha para o tratamento da neuralgia do trigêmeo, com eficácia comprovada em cerca de 60% a 80% dos pacientes desde a década de 1960. Uma metanálise reunindo estudos controlados por placebo confirmou essa superioridade com significância estatística.
Como é um anticonvulsivante, a carbamazepina age bloqueando canais de sódio dependentes de voltagem nas células nervosas, o que impede a propagação anômala do sinal elétrico responsável pela dor. Os efeitos adversos mais comuns incluem sedação, tontura, visão embaçada, náuseas e boca seca, e são justamente esses efeitos, mais do que a falta de eficácia, os principais responsáveis por pacientes abandonarem o tratamento.
Por isso, outras opções entram em cena quando a carbamazepina não é bem tolerada:
Oxcarbazepina: mecanismo de ação parecido com o da carbamazepina, mas com menor risco de interações medicamentosas e melhor tolerabilidade, sendo considerada uma alternativa mais segura, embora ainda com evidências menos robustas especificamente para a NT.
Lamotrigina: mostrou-se superior ao placebo em estudo controlado, sendo recomendada como fármaco de segunda escolha para casos refratários, geralmente como terapia adjuvante.
Pimozida: também superior à carbamazepina em um estudo comparativo, mas com alta incidência de efeitos adversos (mais de 80% dos pacientes), o que limita seu uso a casos graves e refratários a outras terapias.
Gabapentina e topiramato: usados na prática clínica, mas até a publicação da metanálise de referência não havia estudos aleatórios, duplamente encobertos e controlados que sustentassem o uso da gabapentina especificamente na NT; os resultados com topiramato foram inconsistentes entre estudos.
É importante frisar: cada organismo responde de um jeito, e ajustar dose ou trocar de medicação é parte normal do tratamento, o acompanhamento médico contínuo é o que permite encontrar o equilíbrio entre alívio da dor e efeitos colaterais toleráveis.
Quando a medicação não é suficiente: alternativas e procedimentos
Quando o paciente não responde ou se torna refratário à medicação sistêmica, o tratamento cirúrgico passa a ser considerado, com procedimentos no gânglio de Gasser (termocoagulação por radiofrequência, compressão por balão, entre outros) ou procedimentos periféricos. Na relação risco-benefício, o tratamento medicamentoso costuma ser favorecido em relação ao cirúrgico sempre que possível.
Além disso, vias alternativas mais recentes vêm sendo estudadas justamente para driblar os efeitos adversos das terapias convencionais:
Toxina botulínica tipo A: tem se mostrado promissora em estudos, com redução ou eliminação da dor, atuando como bloqueadora da comunicação entre nervo e músculo.
Bloqueio anestésico com lidocaína: aplicado nos ramos periféricos do nervo trigêmeo, combinado à farmacoterapia convencional, trouxe alívio da dor por períodos que variaram de 3 a 172 semanas em parte dos pacientes estudados.
Calcitonina: em ensaio clínico randomizado e duplo-cego, associada à lidocaína, demonstrou alívio significativo da dor.
Os efeitos adversos dessas alternativas tendem a ser mais leves, variando de dor de cabeça a fraqueza facial leve e transitória quando comparados às terapias convencionais.
Canabidiol no tratamento da neuralgia do trigêmeo
O canabidiol (CBD) é um dos principais fitocanabinoides da planta Cannabis sativa, ao lado do THC, mas, diferente dele, não produz efeitos psicoativos. O CBD atua como modulador do sistema endocanabinoide (SEC), uma rede de receptores (CB1 e CB2) e substâncias naturais do próprio corpo que regula funções como dor, inflamação, sono e humor.
Os receptores CB1, presentes em regiões do sistema nervoso central ligadas à percepção da dor, ajudam a explicar por que canabinoides vêm sendo estudados como opção terapêutica em diferentes quadros de dor crônica, da dor oncológica à dor neuropática associada à esclerose múltipla e à fibromialgia.
Especificamente sobre a neuralgia do trigêmeo, a evidência disponível na literatura levantada é ainda pontual: um relato de caso descreveu um paciente com esclerose múltipla progressiva, que apresentava tanto espasticidade quanto neuralgia do trigêmeo decorrentes da doença. Ao iniciar o tratamento com nabiximóis, formulação canabinoide combinando THC e CBD, descrita no estudo original como um composto canabinoide, o paciente apresentou benefício significativo na neuralgia do trigêmeo, que se resolveu completamente, enquanto a espasticidade respondeu apenas parcialmente ao tratamento.
Vale reforçar: trata-se de um único relato de caso, e não de um ensaio clínico controlado, o tipo de evidência mais forte na medicina. Isso significa que o resultado é promissor e justifica mais pesquisa, mas ainda não permite afirmar que o CBD ou formulações canabinoides sejam um tratamento estabelecido para a neuralgia do trigêmeo da forma como a carbamazepina já é. O uso de canabinoides para dor crônica em geral, por outro lado, conta com corpo de evidência mais amplo, incluindo estudos randomizados controlados por placebo.
Por isso, qualquer avaliação sobre incluir canabinoides no tratamento, seja como terapia adjuvante, seja para casos refratários às opções convencionais, deve ser feita com acompanhamento médico especializado, com titulação de dose e ajustes conforme a resposta de cada paciente.
Como iniciar o tratamento com segurança
Diante de tantas opções, dos anticonvulsivantes às alternativas mais recentes, passando pelos canabinoides, o ponto em comum de toda a literatura é o mesmo: a individualidade do paciente e a relação risco-benefício precisam guiar a escolha do tratamento, e o sucesso depende diretamente da adesão à terapia proposta.
Se a dor característica da neuralgia do trigêmeo faz parte da sua rotina, o primeiro passo é buscar avaliação com um profissional que conheça a condição a fundo. É por aqui que a CannaCare entra: unindo consulta médica especializada, acesso a produtos com suporte regulatório da Anvisa e acompanhamento clínico contínuo, o Cuidado Continuado, para que ajustes de tratamento aconteçam com monitoramento ativo, sem custo adicional.
Perguntas frequentes
Neuralgia do trigêmeo tem cura?
Não existe um tratamento que garanta a cura definitiva da neuralgia do trigêmeo, mas a condição tem manejo eficaz na maioria dos casos. A carbamazepina, por exemplo, traz alívio significativo da dor em 60% a 80% dos pacientes, e opções de segunda linha ou procedimentos estão disponíveis para os casos que não respondem à primeira abordagem.
O canabidiol substitui a carbamazepina no tratamento?
Não. A evidência científica sobre canabinoides especificamente para a neuralgia do trigêmeo ainda é limitada a relatos de caso, enquanto a carbamazepina tem décadas de estudos controlados sustentando seu uso como primeira linha. Qualquer mudança ou combinação de tratamento deve ser decidida com acompanhamento médico, nunca por conta própria.
Quais os efeitos colaterais mais comuns do tratamento convencional?
Os anticonvulsivantes usados no tratamento, como carbamazepina, oxcarbazepina, gabapentina e lamotrigina, podem causar sedação, tontura, náuseas, visão embaçada e boca seca, entre outros efeitos. É justamente por causa desses efeitos que muitos pacientes interrompem o tratamento, o que reforça a importância de acompanhamento para ajuste de dose ou troca de medicação.
Cannabis medicinal para dor crônica precisa de prescrição no Brasil?
Sim. O acesso a produtos de cannabis medicinal no Brasil depende de prescrição médica e de importação autorizada pela Anvisa. Não é um produto de venda livre, e o acompanhamento profissional é essencial para definir dose, formulação e monitorar a resposta ao tratamento.
Quanto tempo demora para sentir alívio da dor com os medicamentos?
Com a carbamazepina, o alívio costuma ser rápido, geralmente dentro de 24 horas após o início do tratamento em dose adequada, a resposta lenta ou ausente, inclusive, pode levar o médico a reconsiderar o diagnóstico. Já com outras terapias, como canabinoides ou toxina botulínica, o tempo de resposta varia e deve ser avaliado individualmente com o profissional responsável.
Referências
ALVES, Túlio César Azevedo; AZEVEDO, Giselli Santos; CARVALHO, Emannuela Santiago de. Tratamento Farmacológico da Neuralgia do Trigêmeo: Revisão Sistemática e Metanálise. Revista Brasileira de Anestesiologia, v. 54, n. 6, p. 836-849, nov./dez. 2004.
FERREIRA, Lucas Gabriel Silva; ROSA, Isadora Rocha; OLIVEIRA, Rita de Cássia Silva de. Terapias farmacológicas para a neuralgia do trigêmeo: revisão de literatura. Revista Neurociências, v. 30, p. 1-15, 2022.
VALENTIM, Emily Gimenez; BENVENHO, Isabela Romagnoli; OLIVEIRA, Ana Paula Magalhães de; EL HASSAN, Soraia; FERREIRA, Elis Regina da Silva. Uso Medicinal do Canabidiol. União das Faculdades dos Grandes Lagos (UNILAGO). (cita: GAJOFATTO, A. Refractory trigeminal neuralgia responsive to nabiximols in a patient with multiple sclerosis. Mult Scler Relat Disord, 2016;8:64-5.)
Dr. Sérgio Rayol
Uma das principais referências em tratamentos à base de cannabis medicinal do Brasil.
SP 165458
Médico com especialização em Hematologia e Hemoterapia pela FMUSP, construiu sua trajetória buscando soluções para pacientes sem resposta aos tratamentos convencionais. O interesse por qualidade de vida de seus pacientes, e cuidados paliativos o levou à estudar o uso da cannabis medicinal para diferentes patologias. Na CannaCare, une rigor científico e cuidado humano para oferecer um acompanhamento próximo e atualizado que fazem a diferença na qualidade de vida de seus pacientes.
• Diretor médico CannaCare
• Médico pela Universidade Estadual de Pernambuco (UPE)
• Especialista em Hematologia e Hemoterapia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
• Especialista em Clínica Médica pelo Hospital Santa Marcelina
• Curso de Medicina Paliativa no Instituto Pallium (Buenos Aires)
• Curso de Medicina Canabinoide pela WeCann Academy






