A insônia é um dos distúrbios do sono mais comuns no mundo e afeta milhões de pessoas de diferentes idades. A dificuldade para adormecer, manter o sono ou voltar a dormir após despertares frequentes pode comprometer a disposição, a produtividade, a memória, o humor e aumentar o risco de diversas doenças quando se torna persistente.
Nos últimos anos, o canabidiol (CBD) passou a ser investigado como uma alternativa terapêutica para pessoas que apresentam alterações do sono, principalmente quando a insônia está associada à ansiedade, dor crônica, estresse ou outras condições clínicas. Apesar do crescente interesse, ainda existem muitas dúvidas sobre sua eficácia, segurança e indicações.
Aqui, você entenderá o que é a insônia, como o canabidiol pode atuar no organismo, o que mostram as principais evidências científicas e em quais situações esse tratamento pode ser considerado.
O que é insônia?
A insônia é caracterizada pela dificuldade para iniciar o sono, permanecer dormindo durante a noite ou acordar antes do horário desejado sem conseguir voltar a dormir, mesmo quando existem condições adequadas para descansar.
Além das alterações noturnas, o diagnóstico também considera os prejuízos durante o dia, como:
fadiga;
sonolência;
dificuldade de concentração;
alterações de memória;
irritabilidade;
redução do desempenho profissional ou acadêmico;
piora da qualidade de vida.
Segundo o DSM-5 e a Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono (ICSD-3), considera-se insônia crônica quando esses sintomas ocorrem pelo menos três vezes por semana durante três meses ou mais.
Como reforça o I Consenso Brasileiro de Insônia, a prevalência do problema pode variar entre 30% e 50% da população, enquanto aproximadamente 10% apresentam insônia crônica, tornando esse um importante problema de saúde pública.
Por que a insônia acontece?
Dormir depende do equilíbrio entre diversos mecanismos cerebrais responsáveis por regular o ciclo sono-vigília. Quando esse sistema sofre interferências, o organismo permanece em um estado de hiperalerta, dificultando o início ou a manutenção do sono.
Diversos fatores podem contribuir para esse quadro, entre eles:
ansiedade;
estresse;
depressão;
dor crônica;
doenças neurológicas;
alterações hormonais;
uso de estimulantes;
hábitos inadequados de sono.
O modelo atualmente mais aceito para explicar a insônia considera três grupos de fatores:
Predisponentes: características individuais que aumentam o risco de desenvolver insônia;
Precipitantes: eventos como perdas, doenças, estresse intenso ou mudanças na rotina;
Perpetuantes: comportamentos que mantêm o problema ao longo do tempo, como preocupação excessiva com o sono ou hábitos inadequados antes de dormir.
O que é o canabidiol (CBD)?
O canabidiol é um dos principais canabinoides encontrados na planta Cannabis sativa. Diferentemente do tetrahidrocanabinol (THC), ele não possui efeito psicoativo, ou seja, não provoca sensação de intoxicação ou euforia.
Seu principal mecanismo de ação ocorre por meio da modulação do sistema endocanabinoide, um conjunto de receptores e substâncias presentes naturalmente no organismo que participa da regulação de diversos processos fisiológicos, incluindo:
sono;
humor;
percepção da dor;
resposta ao estresse;
memória;
inflamação;
equilíbrio do sistema nervoso.
Além dos receptores CB1 e CB2, o CBD também interage com receptores serotoninérgicos (5-HT1A), canais TRPV1 e outros sistemas neuroquímicos relacionados à ansiedade e ao ciclo do sono.
O canabidiol realmente ajuda na insônia?
A resposta mais precisa é: depende da causa da insônia.
Até o momento, as evidências sugerem que o CBD pode melhorar o sono em algumas pessoas, especialmente quando a dificuldade para dormir está relacionada a condições como ansiedade, dor crônica, transtorno de estresse pós-traumático ou doenças neurológicas.
Entretanto, ainda não existem evidências suficientes para afirmar que o canabidiol seja um tratamento universal para todos os casos de insônia primária.
Uma revisão publicada na revista Cannabis and Cannabinoid Research concluiu que os estudos disponíveis apresentam resultados promissores, mas ainda são limitados por amostras pequenas, diferentes doses utilizadas e metodologias variadas.
Os autores destacam que são necessários ensaios clínicos randomizados de maior qualidade para determinar quais pacientes realmente se beneficiam do tratamento.
Outro estudo clínico publicado na mesma revista observou melhora clinicamente significativa da qualidade do sono em parte dos pacientes tratados com formulações contendo canabinoides, principalmente naqueles que apresentavam ansiedade associada.
Como o CBD pode melhorar o sono?
Os pesquisadores acreditam que o efeito do canabidiol sobre o sono não ocorre por induzir diretamente a sonolência, como acontece com alguns medicamentos hipnóticos.
Seu benefício parece estar relacionado principalmente ao tratamento dos fatores que impedem o organismo de dormir adequadamente.
Entre os mecanismos mais estudados estão:
Redução da ansiedade
A ansiedade é uma das principais causas de insônia.
Diversos estudos mostram que o CBD apresenta propriedades ansiolíticas, podendo reduzir pensamentos acelerados, tensão e hiperatividade cerebral em algumas pessoas, favorecendo o início do sono.
Controle da dor
Pacientes com dores persistentes frequentemente apresentam despertares noturnos e redução da qualidade do sono.
Ao contribuir para o manejo da dor em determinadas condições clínicas, o CBD pode favorecer um sono mais contínuo.
Modulação do estresse
O sistema endocanabinoide participa da resposta fisiológica ao estresse.
A modulação desse sistema pelo canabidiol pode ajudar a reduzir estados de hiperalerta, frequentemente presentes em pessoas com insônia crônica.
Melhora indireta da qualidade do sono
Em muitos estudos, os participantes relataram dormir melhor porque houve melhora da condição clínica de base, e não necessariamente porque o CBD funcionou como um sedativo.
Essa diferença é importante para compreender que o objetivo do tratamento é controlar os fatores que prejudicam o sono.
Quem pode se beneficiar do tratamento com canabidiol para insônia?
O tratamento com canabidiol não é indicado para toda pessoa que apresenta dificuldade para dormir. Antes de considerar seu uso, é fundamental identificar a causa da insônia, uma vez que esse sintoma pode estar relacionado a diferentes doenças ou hábitos inadequados.
As evidências científicas sugerem que o CBD pode ser considerado principalmente em pacientes cuja insônia está associada a condições como:
transtornos de ansiedade;
dor crônica;
fibromialgia;
doenças neurológicas;
transtorno de estresse pós-traumático (TEPT);
doenças inflamatórias;
condições clínicas em que o sono é prejudicado por sintomas persistentes.
Nesses casos, a melhora do sono costuma ocorrer como consequência do controle da doença de base.
Por outro lado, quando a insônia é causada exclusivamente por hábitos inadequados, como uso excessivo de telas antes de dormir, horários irregulares ou consumo elevado de cafeína, o tratamento deve priorizar mudanças no estilo de vida e intervenções comportamentais.
O que dizem os estudos científicos?
O interesse pelo uso do canabidiol nos distúrbios do sono cresceu significativamente na última década. No entanto, os pesquisadores ainda ressaltam que a literatura apresenta limitações importantes.
Entre os principais achados publicados até o momento, destacam-se:
Melhora subjetiva da qualidade do sono
Diversos estudos observacionais relatam melhora na percepção da qualidade do sono, redução dos despertares noturnos e aumento da satisfação dos pacientes com o descanso noturno.
Embora esses resultados sejam consistentes em diferentes populações, grande parte das pesquisas utiliza questionários de autoavaliação, o que dificulta estabelecer conclusões definitivas.
Benefícios em pacientes com ansiedade
A ansiedade aparece como um dos fatores mais frequentemente associados à melhora do sono após o tratamento com CBD.
Isso ocorre porque o canabidiol pode modular circuitos cerebrais envolvidos na resposta ao estresse e na regulação emocional, reduzindo o estado de hiperalerta que dificulta o início do sono.
Essa hipótese é uma das mais aceitas atualmente para explicar seus efeitos sobre a insônia.
Ainda faltam estudos de alta qualidade
Apesar dos resultados promissores, os próprios autores das revisões científicas alertam que ainda existem limitações importantes.
Entre elas estão:
pequeno número de participantes;
diferenças entre doses utilizadas;
formulações distintas de Cannabis medicinal;
tempo curto de acompanhamento;
diferentes causas de insônia avaliadas no mesmo estudo.
Por esse motivo, ainda não é possível afirmar que o canabidiol seja um tratamento de primeira linha para todos os casos de insônia.
As evidências atuais indicam potencial terapêutico, mas reforçam a necessidade de novos ensaios clínicos randomizados.
O canabidiol substitui os medicamentos para dormir?
Não.
Os medicamentos tradicionalmente utilizados para tratar insônia possuem mecanismos de ação diferentes e indicações específicas.
O canabidiol não deve ser utilizado como substituto por conta própria, nem como forma de interromper medicamentos prescritos.
Quando indicado, ele faz parte de um plano terapêutico individualizado, elaborado pelo médico, considerando:
histórico clínico;
medicamentos em uso;
doenças associadas;
gravidade da insônia;
expectativa de tratamento.
Em muitos casos, o tratamento mais eficaz continua sendo a combinação entre mudanças comportamentais, higiene do sono, terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) e, quando necessário, tratamento medicamentoso.
O I Consenso Brasileiro de Insônia considera a terapia cognitivo-comportamental o tratamento de primeira linha para a insônia crônica, sendo os medicamentos utilizados conforme avaliação clínica individual.
O canabidiol provoca sono durante o dia?
De maneira geral, o CBD apresenta um perfil de segurança considerado favorável.
Os efeitos adversos descritos nos estudos costumam ser leves e transitórios, podendo incluir:
sonolência;
boca seca;
tontura;
alterações gastrointestinais;
fadiga.
Entretanto, a ocorrência desses efeitos depende da dose utilizada, da formulação prescrita e das características individuais de cada paciente.
Outro aspecto importante é que o canabidiol pode interagir com diversos medicamentos metabolizados pelo fígado, tornando indispensável o acompanhamento médico durante o tratamento.
O tratamento funciona para qualquer tipo de insônia?
Não.
A insônia é um sintoma, e não uma doença única.
Ela pode estar relacionada a dezenas de condições clínicas diferentes, como ansiedade, depressão, dor, doenças respiratórias, alterações hormonais, transtornos neurológicos e até uso de determinados medicamentos.
Por isso, identificar a causa da dificuldade para dormir continua sendo a etapa mais importante do tratamento.
Segundo o I Consenso Brasileiro de Insônia, compreender os fatores predisponentes, precipitantes e perpetuantes da insônia é essencial para definir a estratégia terapêutica mais adequada.
Como melhorar a qualidade do sono além do tratamento?
Independentemente da abordagem escolhida, algumas medidas conhecidas como higiene do sono ajudam a melhorar a qualidade do descanso e potencializam qualquer tratamento.
As principais recomendações incluem:
manter horários regulares para dormir e acordar;
evitar telas pelo menos uma hora antes de dormir;
reduzir o consumo de cafeína e bebidas estimulantes no período da tarde e da noite;
praticar atividade física regularmente, preferencialmente longe do horário de dormir;
manter o quarto silencioso, escuro e confortável;
evitar refeições muito pesadas próximo ao horário de dormir;
utilizar a cama apenas para dormir ou manter relações sexuais.
Essas medidas possuem forte respaldo científico e fazem parte das recomendações nacionais e internacionais para o manejo da insônia.
Quando procurar um médico?
É recomendável buscar avaliação médica quando a dificuldade para dormir:
persiste por várias semanas;
ocorre pelo menos três vezes por semana;
provoca sonolência excessiva durante o dia;
prejudica o trabalho, os estudos ou a qualidade de vida;
está associada à ansiedade, dor, depressão ou outras doenças.
A investigação clínica é essencial para identificar a causa da insônia e definir se existe indicação para tratamentos específicos, incluindo, quando apropriado, medicamentos à base de Cannabis medicinal.
Conclusão
O canabidiol vem sendo estudado como uma opção terapêutica promissora para pessoas que apresentam insônia associada a ansiedade, dor crônica e outras condições clínicas. As pesquisas disponíveis mostram resultados encorajadores, principalmente na melhora da qualidade subjetiva do sono e na redução de sintomas que interferem no descanso noturno.
Entretanto, as evidências científicas ainda são insuficientes para recomendar o CBD como tratamento de primeira linha para todos os casos de insônia. A resposta ao tratamento varia conforme a causa do distúrbio, a formulação utilizada, a dose prescrita e as características individuais de cada paciente.
Por esse motivo, o uso do canabidiol deve ocorrer sempre com acompanhamento médico. Uma avaliação clínica adequada permite identificar a origem da insônia, indicar a estratégia terapêutica mais apropriada e monitorar a eficácia e a segurança do tratamento ao longo do tempo.
Referências
Revista Dormir Bem: Uma Questão de Saúde.
Acabe com sua Insônia e Durma Melhor – Universidade Federal de Alagoas.
I Consenso Brasileiro de Insônia.
Uygur H. Unraveling the insomnia puzzle: sleep reactivity, attention deficit hyperactivity symptoms, and insomnia severity in ADHD patients. Frontiers in Psychiatry. 2025.
Dr. Claudio Gonser
Psiquiatria
32544 · RQE 19624
Psiquiatra com um olhar voltado ao cuidado da saúde mental em suas diversas expressões, da ansiedade e do humor depressivo à insônia, ao TEA e ao TDAH, sempre atento à qualidade de vida de cada paciente.
A prática de Dr. Claudio nasce de uma formação sólida em psiquiatria. Graduou-se em Medicina pela UFMG em 1998 e concluiu a residência no Instituto Raul Soares (FHEMIG) em 2000. Desde 2012, supervisiona a Residência Médica de Psiquiatria do SUS em Betim, credenciada pelo MEC, e ao longo do caminho aprofundou-se no Transtorno do Espectro Autista.
Passou também a aplicar o tratamento com cannabis como uma das terapias possíveis para diferentes queixas, como ansiedade, humor depressivo, insônia, TEA, TDAH e enxaqueca. Na CannaCare, já acompanhou mais de 80 pacientes, unindo o rigor da psiquiatria a um cuidado humano e individualizado.
Graduado em Medicina (UFMG, 1998)
Residência Médica em Psiquiatria (Instituto Raul Soares / FHEMIG, 2000)
Supervisor da Residência Médica de Psiquiatria do SUS Betim (credenciada pelo MEC), desde 2012
Certificação em Cannabis Medicinal (Unifesp)
Pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista






