A ansiedade faz parte da experiência humana. Ela é uma resposta natural do organismo diante de situações percebidas como ameaçadoras ou desafiadoras, preparando o corpo e a mente para agir. Em intensidade adequada, pode até ser benéfica, aumentando o estado de alerta e favorecendo o desempenho em diferentes situações do cotidiano.
O problema surge quando essa resposta deixa de ser proporcional ao contexto. Quando a preocupação se torna constante, difícil de controlar e começa a interferir na rotina, nos relacionamentos, no trabalho ou na qualidade de vida, a ansiedade pode representar um transtorno que merece avaliação profissional.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos de ansiedade estão entre os transtornos mentais mais comuns no mundo e afetam centenas de milhões de pessoas. Além do sofrimento emocional, essas condições estão associadas à redução da produtividade, piora da saúde física e aumento do risco de outras doenças psiquiátricas.
Embora muitas pessoas procurem uma solução definitiva para o problema, a ciência mostra que não existe uma única estratégia capaz de eliminar a ansiedade “de uma vez por todas”. O que existe são tratamentos e mudanças no estilo de vida capazes de reduzir significativamente os sintomas, aumentar o controle emocional e promover qualidade de vida de forma duradoura.
Neste conteúdo, um especialista explica o que realmente funciona para controlar a ansiedade, quais hábitos ajudam no dia a dia, quando procurar ajuda médica e qual é o papel da Cannabis medicinal dentro desse contexto.
Dra. Bárbara Eliane Matos fala sobre ansiedade
O que é ansiedade?
A ansiedade é um estado emocional caracterizado por sentimentos de apreensão, preocupação e expectativa diante de situações futuras. Ela desencadeia uma série de alterações fisiológicas coordenadas pelo sistema nervoso autônomo, como aumento da frequência cardíaca, tensão muscular e maior estado de vigilância.
Essas respostas são consideradas normais e fazem parte do mecanismo de sobrevivência do organismo.
No entanto, quando a ansiedade se torna excessiva, persistente ou desproporcional ao risco real, ela deixa de cumprir uma função adaptativa e pode evoluir para um transtorno de ansiedade.
De acordo com a Associação Americana de Psicologia (APA), os transtornos de ansiedade envolvem medo e preocupação intensos, acompanhados por sintomas físicos e comportamentais que comprometem o funcionamento diário.
Quando a ansiedade deixa de ser normal?
É comum sentir ansiedade antes de uma entrevista de emprego, uma prova importante ou uma consulta médica. Nessas situações, o desconforto costuma desaparecer assim que o evento termina.
Já nos transtornos de ansiedade, os sintomas permanecem mesmo na ausência de um perigo imediato e podem durar meses ou anos.
Alguns sinais indicam que a ansiedade merece atenção especializada:
preocupação excessiva na maior parte dos dias;
dificuldade para controlar pensamentos negativos;
sensação constante de que algo ruim vai acontecer;
sintomas físicos frequentes sem causa aparente;
prejuízo nas atividades profissionais, acadêmicas ou sociais;
alterações importantes no sono e na concentração.
Segundo a literatura científica, o diagnóstico depende da avaliação clínica realizada por um profissional de saúde, considerando a frequência, intensidade e duração dos sintomas.
Quais são os principais sintomas da ansiedade?
A ansiedade pode se manifestar de diferentes maneiras. Algumas pessoas apresentam sintomas predominantemente emocionais, enquanto outras percebem principalmente alterações físicas.
Sintomas emocionais
Entre os sintomas psicológicos mais frequentes estão:
preocupação constante;
sensação de medo sem motivo claro;
irritabilidade;
dificuldade para relaxar;
pensamentos acelerados;
dificuldade de concentração;
sensação de perda de controle.
Sintomas físicos
O organismo também responde ao estado de ansiedade por meio de diversas alterações fisiológicas, como:
coração acelerado;
respiração curta;
tensão muscular;
tremores;
suor excessivo;
desconforto gastrointestinal;
sensação de aperto no peito;
fadiga constante;
alterações do sono.
Esses sintomas resultam da ativação prolongada dos sistemas responsáveis pela resposta ao estresse, principalmente pela liberação de adrenalina e cortisol.
Por que a ansiedade acontece?
Não existe uma única causa para a ansiedade. Atualmente, entende-se que ela resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos e ambientais.
Entre os fatores associados ao desenvolvimento dos transtornos de ansiedade estão:
predisposição genética;
alterações na comunicação entre neurotransmissores cerebrais;
experiências traumáticas;
estresse crônico;
privação de sono;
doenças clínicas;
uso excessivo de estimulantes, como cafeína;
consumo de álcool e outras substâncias.
Além disso, pessoas expostas continuamente a situações de alta pressão podem apresentar maior vulnerabilidade ao desenvolvimento desses transtornos.
Diversos estudos mostram que alterações em neurotransmissores como serotonina, ácido gama-aminobutírico (GABA), glutamato e noradrenalina desempenham papel importante na regulação da ansiedade, o que explica por que alguns medicamentos e terapias atuam justamente nesses sistemas.
É possível controlar a ansiedade de uma vez por todas?
Essa é uma das perguntas mais frequentes nos consultórios.
A resposta baseada nas evidências científicas é que não existe uma solução única ou imediata capaz de eliminar definitivamente a ansiedade. Entretanto, existe algo muito mais importante: é possível aprender a controlá-la de forma consistente e reduzir significativamente seus impactos na qualidade de vida.
O tratamento moderno dos transtornos de ansiedade busca diminuir a frequência e a intensidade dos sintomas, melhorar o funcionamento emocional e prevenir recaídas.
Na prática, isso significa que muitas pessoas conseguem viver longos períodos praticamente sem sintomas quando seguem um plano terapêutico adequado.
Nos próximos tópicos, veremos quais estratégias apresentam os melhores resultados segundo a ciência.
Como controlar a ansiedade? Estratégias que realmente funcionam
Controlar a ansiedade envolve uma combinação de intervenções que atuam tanto sobre os sintomas quanto sobre suas causas. Nenhuma estratégia isolada funciona para todas as pessoas, mas diversas abordagens possuem eficácia comprovada pela literatura científica.
1. Psicoterapia
A terapia é considerada um dos pilares do tratamento dos transtornos de ansiedade.
Entre as diferentes abordagens, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das mais estudadas. Seu objetivo é ajudar o paciente a identificar padrões de pensamento disfuncionais, modificar comportamentos que perpetuam a ansiedade e desenvolver estratégias para lidar melhor com situações estressantes.
Estudos mostram que a TCC reduz significativamente os sintomas e apresenta benefícios duradouros, principalmente quando iniciada precocemente.
2. Exercícios físicos
A prática regular de atividade física está associada à redução dos níveis de ansiedade, melhora do humor e aumento da qualidade do sono.
Durante o exercício ocorre a liberação de substâncias relacionadas ao bem-estar, como endorfinas, além da modulação de neurotransmissores envolvidos na regulação emocional.
Não é necessário realizar treinos intensos para obter benefícios. Caminhadas, musculação, ciclismo, natação e exercícios funcionais já demonstram efeitos positivos quando praticados regularmente.
3. Sono de qualidade
Dormir pouco ou mal aumenta a atividade das áreas cerebrais relacionadas ao medo e reduz a capacidade de regular emoções.
Por isso, manter uma rotina de sono adequada faz parte do tratamento da ansiedade.
Algumas medidas simples incluem:
manter horários regulares para dormir;
reduzir o uso de telas antes de deitar;
evitar cafeína no período da noite;
criar um ambiente escuro e silencioso.
4. Técnicas de respiração e mindfulness
Práticas de atenção plena (mindfulness) e exercícios respiratórios auxiliam na redução da ativação fisiológica causada pela ansiedade.
Essas estratégias não eliminam o transtorno, mas ajudam a reduzir sintomas durante crises e melhoram a percepção emocional ao longo do tempo.
Programas estruturados de mindfulness já demonstraram benefícios em diversos estudos clínicos, especialmente quando associados ao tratamento convencional.
5. Alimentação equilibrada
Embora nenhum alimento cure a ansiedade, uma alimentação rica em frutas, vegetais, fibras, proteínas de qualidade e gorduras saudáveis favorece o funcionamento do cérebro.
Também é recomendado moderar o consumo de álcool, bebidas energéticas e excesso de cafeína, que podem intensificar sintomas em pessoas mais sensíveis.
6. Medicamentos
Quando a ansiedade é intensa ou compromete significativamente a qualidade de vida, o médico pode indicar tratamento farmacológico.
Os medicamentos mais utilizados incluem antidepressivos, principalmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), além de outras classes específicas conforme cada caso.
Ansiolíticos também podem ser utilizados em situações selecionadas, geralmente por períodos curtos devido ao risco de dependência.
A escolha do medicamento depende da avaliação individual e nunca deve ocorrer por automedicação.
Cannabis medicinal pode ajudar a controlar a ansiedade?
O interesse pela Cannabis medicinal no tratamento da ansiedade cresceu significativamente nos últimos anos. Entre os compostos mais estudados está o canabidiol (CBD), um fitocanabinoide que não apresenta efeito psicoativo e interage com diferentes sistemas envolvidos na regulação emocional.
Estudos experimentais sugerem que o CBD pode modular receptores relacionados à serotonina, além de influenciar o sistema endocanabinoide, mecanismos potencialmente associados à redução da ansiedade.
Pesquisas clínicas também indicam resultados promissores em algumas condições específicas, especialmente ansiedade social e ansiedade relacionada a determinadas situações de estresse.
No entanto, as evidências atuais ainda apresentam limitações importantes, como número reduzido de participantes, diferenças entre protocolos de tratamento e falta de estudos de longa duração.
Uma revisão publicada em 2026 no The Lancet Psychiatry concluiu que os canabinoides podem representar uma alternativa terapêutica para alguns pacientes, mas reforçou que a qualidade das evidências ainda varia conforme a condição clínica e que são necessários estudos adicionais para definir quais pacientes apresentam maior benefício.
Por esse motivo, a Cannabis medicinal não deve ser considerada um tratamento de primeira linha para todos os casos de ansiedade.
Ela pode ser avaliada pelo médico como parte de um plano terapêutico individualizado, principalmente quando tratamentos convencionais não apresentam resposta satisfatória, provocam efeitos adversos importantes ou quando existem outras condições clínicas associadas que também podem se beneficiar da terapia.
O tratamento deve sempre ocorrer com acompanhamento médico especializado, utilizando produtos regulamentados e doses individualizadas.
Quando procurar ajuda profissional?
Nem toda ansiedade exige tratamento medicamentoso, mas alguns sinais indicam que é importante procurar avaliação especializada.
Busque ajuda quando houver:
sintomas persistentes por várias semanas ou meses;
crises frequentes de ansiedade ou pânico;
prejuízo no trabalho, estudos ou relacionamentos;
dificuldade importante para dormir;
isolamento social;
sofrimento intenso;
uso de álcool ou outras substâncias para aliviar os sintomas;
pensamentos de desesperança ou risco à própria segurança.
Quanto mais cedo o tratamento é iniciado, maiores são as chances de controlar os sintomas e evitar a cronificação do quadro.
Perguntas frequentes
Ansiedade tem cura?
Em muitos casos, os sintomas podem entrar em remissão por longos períodos com tratamento adequado. Algumas pessoas deixam de apresentar sintomas, enquanto outras aprendem a controlá-los de forma eficaz ao longo da vida.
Quanto tempo leva para controlar a ansiedade?
Depende da intensidade dos sintomas, do diagnóstico e da adesão ao tratamento. Algumas estratégias comportamentais produzem melhora em poucas semanas, enquanto tratamentos medicamentosos costumam apresentar efeito após algumas semanas de uso contínuo.
Respirar fundo ajuda durante uma crise?
Sim. Técnicas de respiração lenta ajudam a reduzir a ativação fisiológica do organismo e podem diminuir sintomas durante episódios agudos de ansiedade, especialmente quando praticadas regularmente.
Posso tratar ansiedade apenas com hábitos saudáveis?
Casos leves podem apresentar melhora significativa com mudanças no estilo de vida. Entretanto, quadros moderados ou graves geralmente exigem acompanhamento psicológico, médico ou ambos.
Conclusão
Controlar a ansiedade não significa eliminar completamente essa emoção, mas aprender a responder a ela de maneira mais saudável e funcional.
Hoje sabemos que estratégias como psicoterapia, atividade física, sono adequado, técnicas de relaxamento e, quando necessário, tratamento medicamentoso apresentam sólida fundamentação científica para reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida.
A Cannabis medicinal também vem sendo estudada como uma alternativa complementar em casos selecionados. Embora os resultados sejam promissores, sua indicação deve ser feita por um profissional habilitado, considerando o histórico clínico, as evidências disponíveis e as necessidades individuais de cada paciente.
O mais importante é compreender que a ansiedade tem tratamento. Buscar ajuda especializada é o primeiro passo para recuperar o bem-estar e retomar uma rotina com mais equilíbrio emocional.
Referências
Organização Mundial da Saúde (WHO). Anxiety disorders. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/anxiety-disorders
Associação Americana de Psicologia (APA). Anxiety. https://www.apa.org/topics/anxiety
Craske MG, et al. Anxiety disorders. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3212920/
Revista Brasileira de Psiquiatria. Diretrizes para transtornos de ansiedade. https://www.scielo.br/j/rbp/a/dz9nS7gtB9pZFY6rkh48CLt/?format=html&lang=pt
The Lancet Psychiatry. Cannabinoids and mental health (2026). https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(26)00014-3/fulltext
Livro: Como Controlar a Ansiedade. https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=tf4VEAAAQBAJ
Livro: Como Controlar a Ansiedade. https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=jqaPEQAAQBAJ
Livro: Ansiedade. https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=nlluDwAAQBAJ
Dra. Bárbara Eliane Matos
Psiquiatria
SC 12361
Médica com um olhar voltado à saúde mental, ao neurodesenvolvimento e ao cuidado contínuo de quem convive com dor e sofrimento psíquico.
A prática de Dra. Bárbara nasce de um olhar amplo, que enxerga a pessoa por inteiro antes de qualquer diagnóstico isolado. Foi essa forma de cuidar e tratar que a levou à pós-graduação em Psiquiatria e ao acompanhamento de condições que atravessam corpo e mente, como a ansiedade, a depressão e a insônia.
Ao longo do caminho, dedicou-se também ao estudo do Transtorno do Espectro Autista e, mais recentemente, à cannabis medicinal como ferramenta terapêutica no manejo de quadros como fibromialgia, TDAH e transtornos de ansiedade.
Na CannaCare, Dra. Bárbara já atendeu mais de 450 pacientes, unindo escuta atenta, base científica e um cuidado próximo.
Graduada em Medicina (Universidade de Taubaté)
Pós-graduada em Psiquiatria (EBRAMED)
Especialização em Transtorno do Espectro Autista (Uniasselvi)
Formação em Cannabis Medicinal — Ciclo Básico e "Cannabis Medicinal do Zero" (Dr. Cannect)






